Simplesmente Berinjela


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09/07/2004 14:11
Olás, amigos.

Estou escrevendo a vocês para informar que terça-feira passada cheguei a Minas. Aliás, a minha vinda para cá foi uma coisa um bocado curiosa. Eu tinha resolvido que chegaria de surpresa, sem avisar a ninguém. Porém, como eu ainda não tenho minha independência financeira e para mim, como para todo bom cidadão brasileiro, as coisas andam meio apertadas, tive que contar meu plano para meu irmão para que ele fosse não só meu cúmplice, mas também meu patrocinador nessa surpresa um tanto estranha...

Pois bem, pedi a ele que me emprestasse o equivalente ao preço da passagem de vinda, e fiz meu planejamento de modo que, na noite em que eu viesse para minha cidade, eu tivesse o necessário para comprar minha passagem e ter mais uns trocados para ônibus urbano e um lanchinho. Não iria sobrar mais nada, nem no meu bolso e nem na conta corrente. E na noite de segunda-feira, lá estava eu, minha bolsa e meu violoncelo, os três prontos para comprar a passagem para casa. Cheguei ao guichê e saquei do bolso os trinta reais da passagem.

  "Juiz de Fora, 21:30."
  "Aumentou, grande."
, falou o atendente."Agora tá R$ 48."

O atendente deve ter tido uma visão interessante dos meus olhos esbugalhados através do vidro sujo do guichê. Além dos R$ 30 reais, eu só tinha mais uns trocadinhos... eu precisava de pelo menos mais R$ 14 para fazer a viagem sossegado. Não sabia o que fazer. Pensei em ligar para a minha casa e pedir o socorro dos meus pais, mas se eu fizesse isso, eles descobririam o meu plano e estragaria a surpresa, e além disso, o tempo era escasso, faltava apenas uma hora para o ônibus sair. Resolvi ligar para o meu irmão, em Juiz de Fora, para pedir a ele que depositasse mais um pouco de dinheiro para mim na minha conta corrente. Se eu tivesse muita sorte, ele conseguiria ir correndo ao centro da cidade, depositar o dinheiro para mim, e eu, graças ao milagre das transferências on-line, conseguiria logo antes de o guichê fechar, sacar o dinheiro, comprar a passagem e correr esbaforido até o ônibus que me levaria até a terra que amo. Um plano arriscado, mas possível. Mas eu não podia mais contar com a sorte. A probabilidade de eu não ir para Minas naquela noite era grande... senti que eu deveria fazer uma loucura. Olhei para o meu violoncelo, olhei para as cadeiras vazias, pensei, pensei... é, tocar violoncelo na rodoviária para arrecadar fundos não seria uma má idéia. Vi que essa era uma experiência de que eu precisava... Procurei o zelador da rodoviária, expliquei a minha situação e perguntei a ele se eu poderia fazer isso.

  "Ó, grande, a diretoria proíbe pedinte aqui dentro. Você pode tocar seu violão grande aí aqui dentro, mas sem pedir dinheiro para as pessoas. Lá fora tá liberado, cê pode pedir e fazer o que você quiser."
  "Mas não tenho como tocar lá fora, preciso de uma cadeira. Vocês podem me emprestar uma cadeira?"
, retruquei.
O zelador (o nome dele era Demerval. Tava escrito no crachá, mas fiquei sem graça de pronunciá-lo) ficou com pena. Olhou para um lado, para o outro, e me falou:
"Olha, faz o seguinte então: pede pras velhinhas com cara de boazinhas que elas te dão dinheiro. Mas faz isso discretamente." Ele aproveitou, sacou a carteira e me deu dois reais. Maravilha! Agora só faltavam doze reais e 50 minutos para eu poder entrar no ônibus... :)

Resolvi seguir o plano sugerido pelo Demerval. Só que fiz um pouquinho diferente e de uma maneira mais criativa. Procurando uma primeira vítima, quero dizer, uma primeira pessoa a quem eu poderia pedir dinheiro, acabei vendo um casal de velhinhos assentado em um dos cantos da rodoviária. Cheguei morrendo de vergonha, realmente eu não sabia direito onde enfiar a cara. Mas lá estava eu na frente deles, com a minha cara de bobo, meio cabisbaixo, segurando a ponta da orelha. Agora não tinha mais volta:

"Oi! É que... eu... bem... é que, bem, será que os senhores poderiam me ajudar? Minha passagem aumentou mais de 50%, estou sem dinheiro para voltar para casa... só que o zelador da rodoviária me disse que é proibido pedir dinheiro aqui dentro da rodoviária, e realmente eu não estou pedindo, não... estou aqui para saber se os senhores aceitam uma prestação de serviço: eu faço uma serenata para vocês por módicos três reais. Os senhores aceitam?" Eles riram, pediram desculpas, e falaram que não tinham dinheiro para me dar naquele momento. Tudo bem. Imagino que com pedinte as coisas devam ser assim mesmo... eu já havia dado um monte de nãos para pessoas que me pediram dinheiro na rua. É claro que comigo não haveria de ser diferente...

Depois disso, vi duas senhoras conversando. Falei a elas o mesmo discurso, e elas me deram cinco reais! Eu daí a pouco estaria rico se as coisas continuassem assim! Perguntei a elas que música elas queriam ouvir. "Ih, não, meu filho! Não precisa tocar nada não." Então tá bom! Sobra mais tempo para eu pedir dinheiro... :)

Cheguei a um grupo de amigos e pedi a eles, e eles me disseram que estavam na mesma situação, precisando de dinheiro também. "Ótimo!", eu falei. "A gente podia montar uma empresa, um conjunto alguma coisa assim... eu toco, vocês cantam, e a gente divide a féria. Que tal? Depois a gente podia expandir a empresa, montar um plano de negócios, alavancar o capital, arrumar um angel investor... o que acham?", falei, brincando. Não sei porquê, mas ninguém do grupo riu...

Não sei o que me deu. Tive vontade de pedir dinheiro para um mano com gorro do Corinthians. Afinal de contas, perdido por um, perdido por mil. No final, toda experiência conta (falava essas coisas para mim mesmo porque no fundo eu estava morrendo de medo de pedir dinheiro para o cara). Fui lá. Não é que o mano sorriu e me deu cinquenta centavos? Falou que não precisava tocar não, que tinha me dado o dinheiro só pela boa história. Que bom! Ganhei dinheiro do mano e não tive nenhum osso quebrado. Então tá bom, mas ainda faltavam R$ 6,50...

Abordei mais um senhorzinho. Contei a história e ele me deu dois reais. Fiz menção de que abriria a capa para tocar para ele. "Não! Não precisa tocar nada não!". Vixi! Será que eu toco tão mal assim? Eu hein... :)

Só sei que no final eu já estava louco para terminar de juntar o meu dinheiro. Vendi meu cartão telefônico por três reais para um colecionador, e uma outra pessoa viu meu esforço e acabou me dando mais dois reais para completar. Eu nem acreditava. Eu tinha conseguido! Foi uma sensação bastante interessante, uma felicidade meio roubada. Bom, uma experiência a mais para a minha bagagem. Fui lá, comprei a minha passagem, feliz da vida. E como ainda faltavam 15 minutos para o ônibus, resolvi fazer uma coisa como agradecimento. Fui até as duas senhorinhas que haviam me dado R$ 5, pedi licença a elas, tirei o violoncelo da capa e toquei o prelúdio da primeira suíte de violoncelo de Bach em homenagem a elas. Foi um momento bem interessante. As pessoas à minha volta, que antes estavam apressadas e nervosas, ficaram calmas, pararam de conversar, e se reuniram à minha volta para ouvir o que saía de dentro daquele "violão esquisito". Parecia que a rodoviária inteira tinha parado. Um monte de olhares curiosos, alguns até um pouco emocionados. Crianças embasbacadas. Acho que aquele momento foi um momento de felicidade dentro daquele ambiente tenso. Terminada a música, alguns aplausos, e uma das senhorinhas resolveu me dar mais dois reais "para um cafezinho". Depois daquilo tudo, eu estava realmente precisando de um cafezinho... :)

Bom, cá estou eu. Ficarei aqui por um mês, descansando e curtindo a minha família e meus amigos. Quando agosto desabar sobre todos nós eu retornarei a Campinas.

Boas férias a todos! :)
enviada por Lucas






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