Simplesmente Berinjela


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06/08/2004 20:47
Alfred Tennyson e o sonho...

"...no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia... despertou o Senhor o espírito de Ciro... de modo que ele fez proclamar... este decreto:... O Senhor Deus do céu... me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém..."
(Segundo Livro de Crônicas, capítulo 36, versos 22 e 23)


Sonhos são coisas engraçadas. Surgem na nossa mente do nada. Às vezes não sonhamos apenas dormindo. Muitas vezes sonhamos acordados, temos arroubos de inspiração vindos do nada e... puf! Surge um sonho na nossa cabeça, e temos muitas vezes vontade de perseguir esse sonho até o fim. Isso acontece comigo e com você várias vezes durante a vida. E eu fico imaginando que deve ter acontecido mais ou menos isso com o rei Ciro. Bom, imagino que você, leitor, não deva estar entendendo nada a respeito desses versículos e nada do que eu estou dizendo até agora... bom, o que aconteceu antes desses versículos transcritos foi que Israel tinha sido tomada pelos babilônios. Quando eles entraram em Jerusalém, eles destruíram tudo, inclusive o lugar que os judeus mais amavam, que era o templo. E o templo não era só um lugar onde eles se reuniam num determinado dia da semana. O templo era eles, o templo era o povo, era a sua identidade. A destruição do templo não foi apenas consequência de uma derrota política e militar. Foi também uma derrota moral, que cada judeu deve ter chorado amargamente. No dia da destruição do templo, alguma coisa também morreu no coração de cada um deles...

Só que a maravilha e a sensação de plenitude e de glória dos dias do templo ficaram ecoando pelo ar, mesmo depois do templo destruído. Havia algo que mantinha a esperança deles, algo que fazia com que eles continuassem vivendo. Sim, o templo seria reconstruído, e a glória da segunda casa seria maior do que a primeira. E a esperança desse momento foi ecoando pelo ar, ecoando... até que toda essa esperança ficou grande o suficiente e se tornou um sonho. Um sonho grande e lindo... agora o sonho só precisava de uma pessoa que pudesse sonhá-lo para que se tornasse realidade. E Deus acabou entregando o sonho para a pessoa que nenhum judeu pudesse imaginar: o rei da Pérsia!

Ora, o rei da Pérsia... o que ele tinha a ver com o templo? Nada! Ele não era judeu, não entendia nada de monoteísmo! Mas aconteceu um dia, imagino eu, que ele estava na varanda de seu palácio, tomando um chazinho, quando de repente... puf! Surgiu o sonho em sua mente! Reconstruir o templo! É isso! E eu fui anteontem para a cama, pensando nisso. E nisso, na minha mente, surgiu um sonho, não desses que eu estou falando, mas sim daqueles sonhos que a gente sonha dormindo. E creio que na minha vida inteira nunca tive um sonho tão real e tão incrível quanto este.

Vi no meu sonho uma escola de segundo grau, bem ao estilo dessas "High Schools" americanas. Nessa escola, um grupo bem heterogêneo de grandes amigos, era mais ou menos umas 10 pessoas. Um belo dia, um padre muito brincalhão e bem para cima surgiu do nada e fez amizade com eles. Todos se reuniam ao redor do padre para ouvir o que ele falava, e as palavras dele caiam fundo no coração de cada um, e cada um se sentia inspirado e grato por ouvir o que aquele homem falava.

Só que alguns dias depois de sua chegada, o padre precisou partir. Disse que precisava de tratar de outros negócios em outro lugar. Mas antes de ir e deixar saudade no coração daqueles amigos, ele os presenteou com um exemplar de um livro de poemas de Alfred Tennyson. E partiu para a estrada.

Agora o padre tinha ido embora. Era apenas eles e o livro. O grupo de amigos viu aquele livro não como um livro, mas como um pequeno tesouro. E o livro passou de mão em mão entre eles, e enquanto folheavam o livro, cada um deles acabou se apaixonando por um poema diferente. Cada um deles leu seu poema-paixão com um sorriso diferente no rosto. Só que quando cada um terminou de ler seu poema e levantou os olhos do livro, aconteceu algo extraordinário com eles: eles viram que os olhos deles tinham ficado encantados! Eles começaram a ver o mundo com outros olhos, viram que a escola deles não era apenas uma escola, era um celeiro de idéias para fazer valer o melhor futuro possível, um canteiro para pequenas gentilezas crescerem, um lugar em que os sonhos esquecidos e destruídos ressuscitariam e tomariam forma e voz... eles sonharam como o rei Ciro sonhou, eles sonharam sonhos de outras pessoas, sonhos lindos que iam remoçando cada vez que o coração de cada um batia.

Agora eles não tinham como escapar. Não tinham como dizer não. Arregaçaram as mangas e começaram a praticar pequenas gentilezas com as pessoas e com as coisas ao redor. Um sorriso aqui, uma flor ali... e as pessoas ao redor deles viram que algo diferente e novo estava acontecendo. Uma centelha nova surgia a cada atitude e a cada sorriso deles. Até que um deles teve a idéia de pegar seu poema-paixão, xerocar e distribuir a seus amigos. E sabe o que aconteceu com seus amigos que leram esse poema xerocado? Os olhos deles ficaram encantados também! Eles também ficaram entusiasmados pela vida, não só pela própria vida, mas também pela vida das outras pessoas! E os outros amigos daquele grupo inicial acabaram fazendo o mesmo, e aconteceu que toda a escola se tomou daquela nova vida...

Mas os professores (ah, os professores...) perceberam aquela movimentação nova na escola. Ao invés de se deixarem encantar também, se inquietaram. Escola não era lugar para insubordinação! Como é que eles poderiam fazer tudo aquilo sem o consentimento da diretoria? Nada disso! E proibiram que livros de poesia circulassem pela escola, e papéis xerocados deveriam ser vistoriados e certificados de que não poderiam conter nenhum tipo de poesia subversiva...

Só que a chama ardia no peito deles. Ela não poderia se apagar, agora nem havia como... a poesia tinha se tornado viva como os sonhos que ela havia despertado. A voz deles não poderia se calar... então eles começaram a declamar, a levar a poesia de boca em boca, ao pé do ouvido, a escrever trechos nas portas dos banheiros, declamar em alta voz no meio do páteo... os olhos de quem ouvia tudo aquilo se enchia de um brilho novo, gargantas se enchiam de nós, sonhos esquecidos eram lembrados...

Deixei o sonho para que você terminasse, caro leitor. Agora esse sonho pertence a você. Eu tive que me levantar no meio da madrugada, na hora em que a estrela da manhã ia dormir, para anotar esse sonho. Não posso continuar. Eu não sei o que aconteceu àqueles jovens insubordinados. Eu não sei o que aconteceu à diretoria. E muito menos, não sei o que aconteceu com a escola e com todos os alunos que escutaram os poemas. Deixei que você decidisse o final. Mas antes de decidir, pergunte primeiro aos seus sonhos esquecidos como é que eles querem que essa história acabe. Mas tome cuidado! Seus olhos podem acabar ficando encantados também... :)


P.S.: eu nunca li nada de Alfred Tennyson, sequer cheguei perto de um livro dele até hoje. Bom, mas que esse sonho me deixou curioso a respeito de sua poesia, ah, isso me deixou... :)
enviada por Lucas






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