Simplesmente Berinjela


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05/12/2004 16:53
"Sol com chuva, casamento de viúva", dizia (e ainda diz) quem mora na roça. Parece nonsense, mas faz sentido. Dizem os chineses que a chuva com sol anuncia mudanças grandes. Período de alegria. E o que pode ser mais alegre do que a figura de uma viuva se casando novamente, de sonhos nascendo de novo?

Saí ontem de casa debaixo de uma chuva com sol, preocupado, para ir conversar com um grande amigo meu a respeito do curso da minha vida. Um momento de decisão, tempo restante contado no relógio. Um mês para uma decisão de vida. O que fazer? A vontade que dá é enfiar a cabeça num buraco e esperar a decisão expirar. Só que isso não pode ser feito, a vida é uma só, e passa rápido. Quando a gente menos espera, nasce o primeiro fio de cabelo branco. Quando a gente menos espera de novo, a cabeça inteira está branca. A vida tem que ser tomada com as duas mãos, como uma bola de futebol americano. E corrida até a linha final. Tombos podem acontecer, mas perder a partida é inadmissível.

Foi importantíssima a conversa que tive com meu amigo. Fez-me lembrar de sonhos, de coisas que eu pensava e penso, de conceitos. Tomei algumas decisões. Decidi abandonar a autocomiseração, a autopiedade, a preguiça (tais pecados terríveis, piores do que matar e roubar, vocês sabiam?), e resolvi abraçar a minha vida como nunca antes.

Só que mais importante que essa conversa, foram duas coisas que se seguiram, e que tocaram profundamente o meu coração.

Há um mês, a gata desse meu amigo teve ninhada, e fui olhar seus filhotinhos. Que bonitos! Mas um deles me chamou a atenção. O nome dele é Tripé, e ele tem esse nome por ter nascido sem a pata dianteira esquerda. Aquela criatura indefesa, de olhos totalmente negros, me comoveu. Eu me vi na figura daquele gato. Não posso abraçar a carreira de violoncelista por várias causas, mas entre elas, está o fato de que possuo um problema no braço esquerdo que me impede de tocar um repertório mais saboroso. E vi aquele gato, quase na mesma situação que eu. Tomei-o nos meus braços a despeito dos protestos da Pacotinho e chorei. Mas aí fui tomado pelo seguinte pensamento: "Esse gato não sabe que não tem uma pata! Ele não tem como se lamuriar de uma coisa que não sabe! Ele vai andar quase normalmente, e nem vai saber que é diferente! Ele já nasceu assim! Para ele, isso é normal! É só um desafio a mais dentre os inúmeros outros." Que coisa... problemas físicos e buracos de alma sempre ficam. Eles sempre vão ficar lá. O que importa não são eles, mas a atitude que a gente toma diante deles. Não podemos ver nossas fraquezas como falhas, mas sim como desafios para dar mais sabor à vida. Obstaculos a serem superados para chegar lá e vencer.

Outra coisa que aconteceu na mesma casa e que me impressionou foi um menino autista com quem tive a oportunidade de me comunicar. Estava ao lado dele, na mesa de refeição, quando de repente ele saiu do seu mundo e me tocou. Pegou a minha mão, e senti que ele queria guiá-la para algum lugar. Deixei que fizesse isso, e ele a guiou para uma concha que estava na panela de molho de macarrão. Enchi a concha e coloquei em seu prato, e deixei minha mão ali. Ele a empurrou de volta para a panela. Deixei a concha lá e aguardei a próxima instrução, deixando a minha mão próxima a seu rosto. Ele guiou a minha mão para a garrafa de Coca-Cola. Pedi que ele segurasse o copo dele (ao que ele atendeu), e enchi seu copo. Coloquei a garrafa de Coca-Cola no lugar e aguardei a próxima instrução. Ele pegou meu braço e o abraçou, em agradecimento.

Isso me fez pensar em como sou limitado na expressão de meus afetos, de meus sentimentos... nunca consegui me expressar direito. Nunca consegui saber o que quero. E, de repente, me deparo com um menino com limitações mais sérias que eu, e que consegue se comunicar e expressar afeto. Se ele consegue, eu também consigo. Eu não sou melhor do que ele e ele não é melhor do que eu.

Esses dois se tornaram meus novos símbolos de luta. Um gato que não sabe de suas limitações e que as vence. Um garoto que vence o grande abismo entre o mundo interior e o exterior. Nunca me esquecerei desses dois encontros. Nunca me esquecerei daquele dia de chuva com sol, dia de mudança, dia de descoberta de um novo eu.

Parabéns, Dudu e Tripé. O mundo é de vocês.
enviada por Lucas






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