Simplesmente Berinjela


Perfil
Blig Amigos

Arquivos



20/01/2005 00:31
Mas há ainda a sensação de que falta algo. Não adianta: a pergunta continua martelando no íntimo e continua pairando sobre nossos pensamentos. Afinal de contas, o que falta para que esse momento chamado agora seja belo, o mais belo de nossas existências? O que pode ser feito para que seja brilhante e pleno, que tenha um gosto de vislumbre do futuro, e que seja, como disse Chico Buarque, "um tempo que refaz o que desfez / que recolhe todo sentimento / e bota no corpo uma outra vez"?

Ah, o agora, esse momento tão efêmero, tão frágil, tão pequeno... mas apesar dessa fragilidade e pequenez, dentro dele cabem todos os nossos sonhos e anseios... pensar na efemeridade da vida e na pequenez do agora faz-nos pensar coisas grandiosas. Basta ter uma postura correta quando a percepção dessa efemeridade chegar à mente.

Vou explicar.

Vamos imaginar duas situações ligeiramente semelhantes que ocorreram com duas pessoas diferentes.

Na primeira situação, temos a Pessoa A. Tudo estava certo na vida da Pessoa A. Ela tinha um bom emprego, tinha encontrado o amor da sua vida, e tinha uma situação financeira estável. Sua vida era admirada, e ele se orgulhava de suas conquistas.

Mas um dia, veio a adversidade, e a Pessoa A perdeu algo que amava. Perdeu ou o amor de sua vida, ou o seu emprego no qual era tão respeitado, ou então seu melhor amigo. E seu mundo cai. Não sabe mais onde se escorar e nem em quem confiar. A exasperação toma conta de seu coração. As horas ficam presas dentro do relógio, os dias se alongam. Preso à dor, a Pessoa A vai ao bar, pede uma dose dupla da bebida mais forte, olha para a dose por alguns instantes e pensa:

"Como a vida é efêmera..."

E toma essa dose, sem se dar conta de si mesmo, do milagre da vida. A vida para ele naquele momento era apenas a dose e sua dor.

Agora temos a Pessoa B. Tudo também estava certo na vida da Pessoa B. Ela, assim como a Pessoa A, também tinha um bom emprego e também tinha encontrado o amor da sua vida, e também tinha uma vida financeira estável. E tal qual a Pessoa A, a Pessoa B também era bastante respeitada.

Mas um dia, veio também a adversidade sobre a Pessoa B. E nesse dia ela descobriu que, devido a uma doença grave em seu esôfago, teria de se alimentar por uma sonda até que seu quadro clínico se tornasse normal. Porém, por parte dos médicos, não havia expectativa de que seu quadro se tornasse normal tão cedo.

Nesse momento, a ansiedade e a exasperação também tomam conta de seu coração. "Será que um dia poderei comer outra vez um leitãozinho à pururuca, uma bela bisteca, um torresminho?", pensa ele. Talvez nunca mais pudesse comer de novo as coisas que amava...

Meses depois ainda estava ele internado, se alimentando por uma sonda, cansado de suas limitações alimentares e de sua situação. E quando menos esperava, recebe a grande notícia: seu quadro agora era normal! Em uma semana poderia retomar aos poucos sua dieta! Seu pensamento era uma alegria só. Mal podia contar os dias e as noites, deitado em sua cama de hospital.

Uma semana depois, recebe a primeira refeição dos últimos meses: um belo prato de legumes. "Legumes!", pensa ele, "eu odeio legumes! Eu quero torresmo!"

Mas, nesse momento de descontentamento acontece algo, e pelo seu pensamento passa um resumo de seus últimos meses, desde o dia em que a adversidade cruzou seu caminho. O dignóstico. A internação. O tratamento. Suas limitações e angústias. E o fim delas. Depois disso, a Pessoa B olha para o prato de legumes por alguns instantes e pensa:

"Como a vida é efêmera..."

Então, aquele momento inicial de descontentamento torna-se um momento mágico. A Pessoa B se dá conta de que está viva, e devora aquele prato de legumes como se aquela fosse a mais fina das iguarias.

O que aconteceu com as Pessoas A e B? As duas saíram do mesmo ponto inicial, aconteceram coisas desagradáveis com ambas, e as duas acabaram meditando sobre a mesma coisa: "Como a vida é efêmera...". Porém, a partir desse pensamento, surgiram posturas diferentes. Aliás, não é engraçado isso? O mesmo pensamento gerando posturas diametralmente opostas. Um teve uma postura de exasperação, o outro, de gratidão...

O que eu quero dizer com essas duas histórias é que qualquer pessoa pode se dar conta facilmente da efemeridade da vida. Só que o que vai determinar a beleza do momento chamado agora (e consequentemente a beleza do resto da vida, pois a vida é feita de pequenos agoras consecutivos) é a postura diante dessa efemeridade. Isto posto, fico a pensar: duas histórias tão semelhantes, com fins tão diferentes. Será que a exasperação e a gratidão são sentimentos e posturas tão díspares assim? Será que a exasperação não pode ser transformada em gratidão através de uma breve meditação sobre essa efemeridade? Eu creio que sim. Temos que aprender a agradecer pelas coisas boas e ruins que acontecem conosco. Agradecer pelas boas é fácil: o sentimento de alegria e de prazer imediatamente disparam os sentimentos de gratidão em nossos corações. Já agradecer pelas ruins é bem difícil, pois nessa situação tendemos a deixar nossos corações serem tomados pela raiva, pela exasperação. Mas aí, sempre que surge esse turbilhão de sentimentos negativos, surge também um pensamento sobre a efemeridade da vida. E ele surge pequeno, grudado na parede da mente. Nessa hora, o que é necessário fazer é analisar e contemplar esse sentimento. E então aí percebemos algo incrível: o sentimento de efemeridade fez um buraquinho na parede da mente, e ao olhar dentro desse buraquinho, conseguimos ver a gratidão nos esperando do outro lado da parede. Agora é tarde: você viu a gratidão do outro lado. Agora ninguém vai segurá-la, pois por mais que você resista, vai chegar a hora em que você verá que a gratidão é muito maior que os sentimentos ruins que habitavam sua mente, e eles então perderão a força, e o Sol da gratidão raiará.

Ah, amigos, é preciso agradecer sempre.

A gratidão é mágica e traz vida aos olhos e à alma.

Hoje entendo por quê São Paulo, há séculos atrás, disse: "Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus." (1o Tessalonicenses 5:18). Ele não disse isso para nos dar uma ordem, mas sim porque, como homem sofrido, sabia o que era necessário para continuar caminhando.

É isso.
enviada por Lucas






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)