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21/08/2006 16:06
Eu estava, há alguns dias atrás, pensando numa coisa que é um contrasenso para mim.
Pense bem: se eu desejo uma coisa, eu tenho que fazer para merecê-la. Se eu quiser um carro, tenho que trabalhar para conseguir dinheiro para comprá-lo. E para eu conseguir um emprego, eu tenho que estudar muito para consegui-lo. E por aí vai. Eu diria que praticamente todas as coisas do mundo são assim: a gente tem que ser merecedor e digno daquilo que vamos receber.
Só que eu estava pensando em duas histórias que eu li que me deixaram um pouco surpreso. Essas duas histórias foram contadas por Jesus, e me revelam uma coisas curiosa: nem sempre as coisas são assim entre nós e Deus. Bom, eu vou contar apenas uma dessas duas histórias aqui, para vocês entenderem o que me surpreendeu.
Conta Jesus que dois homens foram ao templo de Jerusalém para orar. Um era guardador ferrenho da lei de Deus e extremamente religioso. O outro era cobrador de impostos. Tirava dinheiro do seu próprio povo, especialmente das pessoas pobres e o dava para Roma, império que dominava Israel naquela época.
O primeiro chegou junto ao altar e orou mais ou menos assim: "Senhor Deus, muito obrigado por eu ser guardador fiel da tua lei, por não faltar em nenhum dos seus mandamentos, de dar o dízimo, de orar a ti três vezes por dia. Muito obrigado por eu ser assim, e não como esse cobrador de impostos, esse pecador que aqui está."
Enquanto isso, o cobrador de impostos ficou bem longe do altar, na porta do templo, e nem tinha coragem de levantar os olhos. Sentia uma vergonha profunda, e um senso de indignidade maior ainda. Entre suas lágrimas, ele apenas conseguia dizer o seguinte em sua oração: "Senhor, tem pena de mim".
E Jesus termina essa história perguntando: afinal de contas, Deus ouviu com mais atenção e com mais alegria a oração de qual dos dois?
Pois é, a resposta é essa mesma. Deus se alegrou com a oração do cobrador de impostos. É curioso pensar nisso: o homem que era digno orou, mas se sua oração não alegrou a Deus, ao passo do que não era digno, profundamente arrependido, teve sua oração ouvida com alegria por Deus.
Você pode pensar: "Mas isso não é justo! Porque Deus não se alegrou com a oração do homem religioso?". A resposta é simples: Deus deseja muito mais nos tratar como filhos do que esperar que façamos alguma coisa piedosa. Deus quer muito mais brincar conosco do que esperar que façamos o dever de casa. Mas nós, no nosso coração movido por mérito, pensamos o contrário. Pode sim haver coisas na nossa relação com Deus que são regidas por mérito e dignidade. Mas o principal, o ponto de partida, não é dado por mérito.
E essas são as boas novas que Deus nos quer transmitir: Deus nos quer tratar como filhos. E mesmo que nos nossos acessos de loucura nos tenhamos rasgado nossas certidões de nascimento, Deus ainda assim alenta o desejo de nos adotar, mesmo que sejamos filhos legítimos.
Então, acho que a primeira grande bênção que Deus nos pode dar é um pequeno sentimento de indignidade quando desejamos conversar ou nos relacionar com Ele. Sentir-se indigno não é ruim. O ruim é quando deixamos esse sentimento de lado e tentamos nos fazer dignos. Isso é péssimo, e recomendo a vocês que não façam isso.
Mas se vocês me perguntarem sobre o que fazer com esse sentimento, eu digo: o sentimento de indignidade é uma chave preciosa, é o gatilho para uma grande transformação de nossas vidas, uma transformação de dentro para fora que nos levará rumo à perfeição. Precisamos fazer apenas uma coisa com essa chave: colocá-la na fechadura e girar.
Mais nada.
enviada por Lucas
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